LIVRO: Ensino Médio Personnalité: Prestidigitações do capital na educação pública

em EPP em Foco/Notícias 259 visualizações

Na sequência do dia internacional da luta dos trabalhadores, no último 02/05/2023 foi lançado na Faculdade de Educação da Universidade de Campinas o livro Ensino Médio Personnalité: Prestidigitações do capital na educação pública, do cientista social Tiago Barreiros de Freitas.

Além de servidor público da carreira de Especialista em Políticas Públicas do Estado de São Paulo, Tiago é mestre e doutorando em Educação pela Unicamp. Seu primeiro livro é o resultado da investigação que buscou encontrar em documentos publicados por organismos multilaterais, como a UNESCO e o Banco Mundial, e por organizações empresariais, como o Todos pela Educação e o Instituto Ayrton Senna, os antecedentes e a natureza ideológica da Reforma do Ensino Médio.

O livro é organizado em cinco capítulos:

  1. Antecedentes da Reforma do Ensino Médio: propostas do governo federal de reestruturação do ensino médio
  2. Relações entre o público e o privado na educação básica
  3. O currículo na Reforma do Ensino Médio
  4. Educação, trabalho e “questões sociais”
  5. Questão da dualidade

Publicado pela editora CONSEQUÊNCIA, o livro pode ser adquirido online por R$ 48.

Confira as orelhas do livro escritas pelo autor

Nos últimos anos, assistimos a intensas e aceleradas transformações na educação básica brasileira. Fundações, institutos e organizações empresariais vêm tomando de assalto, com apetite e furor crescentes, o controle das determinações das políticas educacionais. Talvez, mais do que nunca, os rumos da escola pública sejam conduzidos diretamente por agentes do capital. A privatização da educação, no sentido amplo, avança, portanto, em larga escala.

A Reforma do Ensino Médio — imposta na forma de medida provisória em 2016 e depois convertida na Lei 13.415/2017 — representa um novo capítulo desse processo. Observar a sua gênese e sua estrutura revela não só sua vinculação umbilical aos grupos empresariais mas também sua atadura a um movimento ininterrupto, que perpassa todos os governos, desde a década de 1990, de busca pela formação de um novo tipo de trabalhador, mais “adequado” a um neoliberalismo da periferia.

Por detrás das tão altissonoras quanto farsescas palavras de ordem da propaganda da nova concepção educacional (“protagonismo juvenil”, “aprendizagem ao longo da vida”, flexibilidade curricular”, “educação do século XXI” etc.), esconde-se a subordinação sem precedentes dos professores e estudantes à lógica do capital de mercadorização e descartabilidade de tudo e todos.

O capitalismo, na atual quadra da história, sem encontrar respostas às suas contradições nem conseguir, de modo consistente, projetar esperanças de uma vida melhor aos indivíduos — tarefa tradicionalmente delegada à educação —, lança uma massa de pessoas numa vazia e crua batalha diária pela sobrevivência, numa atividade de resignação e adaptação, “ao longo da vida”, a uma ordem social que escapa totalmente de seu controle.

A Reforma do Ensino Médio parece apontar a este mundo sem qualquer perspectiva de remissão.

Confira a contracapa escrita por Carolina Catini

O que fazer quando um plano de educação estatal passa a se apresentar como propaganda de um percurso formativo a ser consumido por cada indivíduo, quando a evasão passa a ser apresentada como índice de queda de “audiência” da escola, ou ainda quando se tenta estabelecer verdadeiros laboratórios para modelagem de comportamentos juvenis por meio do desenho de seus perfis psicológicos, em nome do protagonismo e liberdade da juventude brasileira?

Quando a densidade da ideologia está sobrecarregada pelo excesso de dispositivos de gestão que não apenas induzem nossas formas de sentir, pensar e agir, mas também transformam nossas ações em performances concorrenciais, não há dúvida de que não há saída por fora da produção do pensamento crítico. Esse é o caso do “Novo Ensino Médio” que, em tese, busca a melhor adequação da juventude ao século XXI por meio do desenho individual de “projetos de vida”, do ensino de habilidades socioemocionais e do empreendedorismo.

A pesquisa aqui apresentada é fruto de um esforço crítico de compreender a educação estatal a partir de um estudo histórico da reforma do ensino médio, bem como de suas articulações com processos de privatização que circunscrevem o currículo numa renovação da dualidade da educação, envolvida na “questão social”, despolitizada e sem conflito de classe. Parte-se do pressuposto de que a falsificação da experiência formativa diz respeito ao ilusionismo do próprio neoliberalismo, pois, sem contraposição, quanto mais imaginamos que agimos com autonomia, mais agimos conforme aquilo que se espera de nós, como indica a bela epígrafe de Thomas Mann, que se refere à prestidigitação. O convite à leitura é também um chamado a dar a outra volta necessária no parafuso ideológico da educação atual e quebrarmos, na prática, este círculo de dominação.

Carolina Catini é professora da Faculdade de Educação da Unicamp e autora de “Privatização da educação e gestão da barbárie” (Lado Esquerdo, 2017) e uma das autoras do livro “Educação contra a barbárie: por escolas democráticas e pela liberdade de ensinar”, organizado por Fernando Cássio (Boitempo, 2019)